sexta-feira, 30 de setembro de 2011

MEMÓRIA - "VOLTO QUANDO CONSEGUIR TRABALHO"


Era 1990 e eu já havia terminado a escola a alguns meses, no ano anterior. Ainda não tinha decidido por alguma faculdade e fazia diversos cursos. Vários, sem parar... E isso porque foi fazendo esses cursos que tive a oportunidade de conhecer minhas primeiras namoradas. As três primeiras, para ser mais exato, e a quarta, que era amiga de minha segunda namorada, mas não era do curso.

No entanto não é delas que falarei aqui hoje, então vamos adiante!

Certo dia, depois de uma briga com minha mãe e ofendido em minha competência, resolvi que sairia de casa para provar do que era capaz. Arrumei minhas coisas no silêncio da noite e me retirei enquanto ela dormia, deixando um bilhete que dizia simples e categoricamente: “Volto quando conseguir trabalho!”. E fui...

Por sorte não prometi dinheiro, mas isso é outra história.

Escolhi um ótimo dia para fugir atrás de trabalho... Noite de sexta, um temporal afogando o Rio de Janeiro e uma greve de ônibus. Perfeito!

Saí do Bairro do Jardim Botânico, onde morava na época e fui andando até Botafogo, de onde ligaria para alguém, atrás de guarida. Sabia que não podia ir para dois lugares, os primeiros que minha mãe procuraria, certamente, que eram a casa da minha namorada e a de um amigo meu na época, o “KVRA”. Lembrei de outro amigo, que namorava uma menina da Tijuca e passava os fins de semana por lá. Não tive dúvidas, peguei o metrô e segui rumo a zona norte.

Além de malandro que foge numa sexta feira de dilúvio e greve, atrás de trabalho, também sou sortudo! Vejam só que sorte a minha: Meu amigo e sua namorada resolvem brigar e tivemos que sair da casa dela. Voltamos a pé da zona norte a zona sul da cidade, com uma pequena, mas bem vinda carona para atravessar o túnel que diminuiria nossa jornada. (Estou tentando resumir a história, mas parece que não estou conseguindo) Bom, acabei tendo de ir pra casa de minha namorada, mas ela me acordou no dia seguinte pra sair de lá rápido, que seus pais logo chegariam de viagem. Corri pra casa do “KVRA”, mas no dia seguinte o pai dele pediu pra deixarmos o apartamento, porque ele havia vendido e tinha que entrega-lo, enfim...

Já sem ter onde ficar, sem roupas limpas pra trocar e ainda sem trabalho, depois de rodar a cidade a pé, resolvi, finalmente, ir ao estúdio do cartunista Ziraldo (na época em Laranjeiras). Cheguei lá todo sujo e suado, com meu mochilão nas costas e a secretária do estúdio me olhando de cima a baixo numa cena constrangedora (pra mim, é claro). Antes que ela chamasse a polícia, eu pedi para que chamasse o Ziraldo. “-Quem quer falar com ele?” perguntou ela com certa antipatia. “-Diz que é o Victor Klier!” Falei como se meu nome fosse o de alguém importante. Então ela disse rindo: “Ahh, o menino que fugiu de casa!”.

Humilhante!

Ziraldo me recebeu com umas folhas de papel na mão e me dizendo assim: “Fugir de casa é um barato, mas tem que tomar cuidado, senão mata sua mãe!” Aí me deu as folhas de papel, apontou uma mesa, pediu pra escrever uma história em quadrinhos e saiu.

Consegui trabalho!!!

...Ainda bem que não prometi dinheiro.

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