quarta-feira, 31 de agosto de 2011

MEMÓRIA - "CLUBE 869"


Na segunda metade dos anos 70 eu morava no que era a zona rural do Rio de Janeiro, no bairro de Guaratiba, na época ainda isolado (pois a Barra da Tijuca era só dunas de areia e ainda não tinha se transformado na cafona sucursal de Miami). As opções de boas escolas ficavam muito longe e as opções próximas, muito ruins, então a solução foi um meio termo e comecei a freqüentar os colégios em Campo Grande, que ficava a pouco mais de 20km do sítio onde eu vivia.

Comecei a pegar ônibus sozinho em 1980, antes mesmo de completar 10 anos, e para chegar ao ponto andava dois quilômetros a pé em estrada de terra, até encontrar o asfalto. Lá eu tinha três opções de ônibus, mas como todo morador local, esperava a linha mais barata que passava a cada 30 minutos, o “869”!

Como essa linha só passava a cada meia hora, era bom não perdê-lo ou era atraso certo. Todos os dias, as mesmas pessoas pegavam o mesmo ônibus com o mesmo motorista, o simpático Tião. Na volta da escola nos reencontrávamos e como eram sempre as mesmas pessoas, todos acabaram se conhecendo e o ônibus passou a ser umas espécie de clube sobre rodas, onde nos divertíamos um bocado.

Além do Tião ao volante, outros personagens faziam daquelas viagens diárias um verdadeiro “Magical Mystery Tour”. Tinha a Mônica, a gatinha mais linda e paquerada entre os estudantes que freqüentavam aquela linha e também a “Babá”, que era uma moça que sempre acompanhava um dos meninos, porque a mãe dele tinha medo que o seqüestrassem.

Um dia na volta da escola, já no 869, a mãe de um dos meninos levava compras para a festa de aniversário de seu filho, quando um dos passageiros sugeriu para começar a festa ali mesmo... E assim foi!

De repente o ônibus tinha bolas coloridas em todas as janelas, línguas de sogra sendo assopradas em todas as bocas, docinhos passando de mão em mão, refrigerante em copinho de papel e, claro, o bolo (com velinha e tudo). A Cada curva o rosto de alguém ficava marcado de glacê e a cada freada um banho de refrigerante quente. Atrás alguém ligou o radinho e deu a festa um fundo musical que todos acompanhavam com uma desafinação animadíssima.

A partir desse dia outras festas aconteceram no nosso clube... Bons tempos!

Um comentário:

Lucielle Wiermann disse...

Dá um roteiro de curta...

adorei, deu saudade do que não vivi...