quinta-feira, 30 de junho de 2011

FICÇÃO - "FUNDO DO POÇO"


Atila era um ser tão desprezível que sua alma foi rejeitado até no inferno. “- Não quero concorrência! Fora daqui!” Disse Lúcifer barrando aquele espírito que já era podre antes mesmo da decomposição de seu corpo físico. No céu nem arriscou entrar, pois sabia que os anjos que guardam o portão do paraíso o mandariam para o inferno.

Não tendo para onde ir, voltou ao cemitério onde fora enterrado e fez reflexões pessoais sobre sua última morada. “- Enterrado numa cova rasa! Se ainda fosse naquele mausoléu triplex. Aquilo sim é vida... Ou morte”. Saber que depois de dar duro em tantos golpes, a sua vida toda, para acabar naquela situação era a maior humilhação que podia sofrer.

Como ser golpista e mau-caráter era de sua natureza, nem aquela situação modificou seus impulsos e lá foi ele tentar um golpe em algum morador daquela necrópole. Mas dar golpe em quem? Para ganhar o que?

Depois de descobrir que do mundo nada se leva, descobriu que do outro lado também nada se ganha, com ou sem golpes.

Olhou em volta atrás de algum fantasma fêmea que pudesse fazê-lo se sentir vivo, mesmo que tudo nele tivesse morto. Só não chorou em sua melancólica realidade, porque as lágrimas também não existiam mais. Como consolo, choveu!

Graças a água da chuva uma plantinha brotou na terra que cobria seu corpo. Atila sorriu e pensou que aquilo devia ser sinal de boa sorte ou que era um sinal da natureza pra mostrar solidariedade.

Era um pé de urtiga, mas logo secou.

Certo dia um simpático vira-latas se aproximou, abanou o rabinho com alegria, como costumam fazer quando estão alegres. Atila sorriu mais uma vez: “- Está me vendo né cachorrinho? Vem cá! Me faz companhia!” O cachorro abanou ainda mais o rabinho, deu algumas voltas no espaço de terra onde Atila estava enterrado, parou, cheirou o chão, se aproximou da planta seca com certo receio, levantou a perninha e fez xixi.

Atila quis morrer de raiva, mas já estava morto!    

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