sábado, 1 de janeiro de 2011

CATORZE POLEGADAS

Era uma noite escura e tempestuosa, com nuvens baixas e aparência de inverno europeu. No entanto, o que imperava era um calor insuportável que combinado à angustiante solidão de uma metrópole adormecida, chegava ao limiar da insanidade, onde os mais fracos são capazes de abrir mão de sua própria vida, buscando uma inexorável paz interior.
Mas isto tudo é bobagem, meu problema não era o silêncio da cidade, mas o do telefone que insistia em provocar minha ansiedade. Afinal, eu estava bastante fragilizado em decorrência do fim de um longo e profundo relacionamento com a minha televisão de catorze polegadas. Ela (a TV) insistia em tentar me catequizar ou empurrar para alguma empreitada de termos bastantes questionáveis. Era arrogante e egocêntrica, mais uma prova de que a paixão é cega e emburrecedora. Contudo, suportei bem a separação e procurei consolo ao lado do telefone, mas estavam ocupados (as pessoas, não os telefones) nas companhias de seus aparelhos de televisão.

“ – Não esquenta, esquece, é só uma fase... mas olha só, é que acabou o comercial, posso te ligar depois ? ”

Madrugada a dentro, ainda sem solução para o vazio embutido em mim, procurei pela geladeira que me tratou com frieza e distanciamento. Um copo d’água era tudo que podia me oferecer. Sempre soube que ela era vazia, mas nestas horas, como se sabe, tentamos nos agarrar a qualquer coisa atrás de conforto.
O relógio na parede, austero, me fitava e apontava a hora. Sem dizer uma palavra me fez entender que eu já não podia mais perder o precioso e irrecuperável tempo que passava sem piedade. “ – É hora de atitude. ”, pensei.

Peguei a chave, abri a porta do quarto e segui no corredor em direção à sala. Peguei uma garrafa de vinho, uns petiscos, desliguei as luzes, o que tornava o clima bastante apropriado, sentei-me no sofá, peguei o controle remoto e liguei minha catorze polegadas.


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